Síria – impressões. A guerra!


Pra começar, gostaria de dizer que esse assunto é muito complexo. Não é fácil dizer “eles estão certos, eles estão errados” e está resolvido. A Síria é uma guerra a parte. Por isso não se pode acreditar em tudo o que vemos na televisão. Estando lá, a realidade é outra!

Independente de opiniões contra ou a favor do regime do Bashar al-Assad, uma coisa é certa: guerras são atrozes, e deveriam ser evitadas ao máximo.

Outra coisa indiscutível é que ditaduras não deveriam mais existir no século 21, mas alguns povos ainda não estão prontos pra serem “livres”. É só ver o que está acontecendo no Egito e na Líbia. Nenhum governo nunca vai ter 100% de aprovação popular, e nos países muçulmanos, onde existe muito extremismo religioso, outros fatores devem ser levados em consideração.

Não sei ao certo o que leva uma pessoa a ir pra guerra voluntariamente (!). Não sei qual foi a minha motivação, mas chegando lá eu vi que numa guerra as maiores vítimas são os civis. Os soldados do exército sírio são obrigados a lutar, os soldados do FSA escolheram lutar e vivem dizendo que querem ir para o paraíso, e no meio disso, quem sofre as consequências é a população, que provavelmente nem quer que a guerra aconteça. Era pra eu ficar uns 11 ou 12 dias na Síria, mas chegando lá, convivendo com os soldados FSA, pagando US$35 por dia pela acomodação, comida e deslocamento, decidi ir embora antes. Eu estava financiando uma guerra que eu não sei se compartilho dos ideais. Dizem ser uma luta por liberdade, mas eu não sei se acredito nisso depois do que presenciei lá. Acho que seja muito mais uma guerra de etnias do que por liberdade propriamente dita.

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Pai chora a morte das filhas de 3 e 7 anos, após ataque aéreo do governo.

Um pouco de geografia: a população síria é de 22 milhões de habitantes. 90% muçulmanos, 10% católicos, curdos, judeus, etc. Desses 90% muçulmanos, 90% são sunitas e 10% alauítas, que é a religião do Bashar al-Assad e também da maioria dos cargos de confiança dele, e de muitos dos soldados do exército.

Agora a pergunta: qual vai ser o destino das minorias (cristãos, curdos, alauítas) quando os sunitas (que são o FSA) vencerem a guerra? Ou eles saem do país (o que muitos já estão fazendo) ou vão todos pro paraíso, mesmo que não queiram. E ainda tem o problema do pós-guerra. País quebrado, metade da população morta ou mutilada, infraestrutura acabada, novo presidente, e ainda vai ter que lidar com uma nova guerra, dessa vez étnica.

O governo não ganha a guerra porque não quer. Poderiam bombardear tudo e conquistar o território, mas eles não o fazem. E o FSA, após conviver por 8 dias com eles, não sei como conseguem ganhar território. São muito amadores, e estão muito mal armados, e ainda assim rua a rua, eles ganham terreno e fazem o exército recuar.

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Mulher amputada após ataque aéreo do governo.

Aqui ouvimos apenas que o exército sírio comete atrocidades, mas conversando com outros soldados FSA, e vendo o seu modo de ação pude ver que eles também matam civis, torturam soldados capturados, e não demonstram sinais de que vão parar quando acabar a guerra. O FSA é dividido em vários grupos menores, com diferentes líderes, e com diferentes motivações, tendo até um braço da Al-Qaeda chamado Jabhat al Nusra que está na Síria para incitar o extremismo religioso, e quando Bashar al-Assad deixar o poder, todos vão querer uma fatia do bolo, e não vão largar as armas facilmente, o que vai gerar mais brigas, dessa vez entre eles.

É por isso que ainda não tenho, e não sei se um dia vou ter uma opinião formada sobre essa guerra. É certo que quem vai vencer é o FSA, pois eles tem o apoio dos EUA, Qatar, Arábia Saudita, Israel, que os está armando, mas a dúvida é quanto tempo ainda vai durar. Para eles, que são muito divididos, era melhor a ditadura, que regulava o que podia ser feito, visto, dito, mas pelo menos mantinha a ordem no país. Quando a guerra tiver acabado, o FSA vai ter um país em ruínas pra reconstruir, e muito caos para ser resolvido. Aí vamos descobrir se todas essas mortes valeram a pena.

Síria – impressões. Pessoas.


Sempre pensei que em uma guerra, ou em uma situação como a que a Síria se encontra, de caos civil, as pessoas se tornassem egoístas, mas no momento em que entrei na Síria vi que lá as pessoas ainda não estão assim, e durante os 7 dias que fiquei no país pude comprovar isso. Não sei dizer se isso é cultural, se eles já eram assim antes da guerra, ou se eles ficaram assim justamente por causa da guerra,vendo o povo sofrer e sabendo que podem fazer alguma coisa para amenizar o sofrimento dos outros, mas a maioria das pessoas que encontramos sempre se mostrou disposta a ajudar quando precisamos de alguma coisa. Seja pra oferecer cigarro, café ou chá, coisa que eles consomem muito, ou até pra dividir um táxi com outras 5 pessoas que, obviamente, nunca vi e nunca mais verei de novo.

No terceiro dia o carro do grupo FSA (Free Syrian Army) que estávamos estragou, e a partir daí o líder do grupo vivia dizendo “Bukra, inshallah, vou conseguir um carro para vocês”. Essa parte nós sabíamos que era lorota, mas depois disso começamos a andar de táxi, e alguns dias ficamos fora até 21hs, 22hs, e nesse horário não encontrávamos mais táxi para voltar para a mesquita, mas sempre encontrávamos alguém que, na escuridão total, e com risco muito grande de assalto, ainda assim parava para nos dar carona.

Youssef, o “faz-tudo” que contratamos lá, vivia se desculpando por tudo. Quando não tinha luz ele se desculpava, quando não tinha internet, quando não tinha água quente (por essa ele se desculpou todos os dias), quando o carro estragou, e muitas outras vezes. Só faltou se desculpar por estarem em guerra, como se a culpa da infra-estrutura do país estar assim fosse dele.

Mesmo nas vezes que fomos para a linha de frente os soldados FSA insistiam para que tomássemos chá com eles. Ouvíamos os tiros dos atiradores do governo nas paredes ao nosso redor, e nós lá, “tranquilos” tomando chá, como se naquele momento nada pudesse acontecer conosco.

Por via das dúvidas eu tomava o chá rápido e ficava pronto pra sair correndo… Um exemplo é essa foto abaixo. Estávamos em um local aberto, tomando chá encostados em uma parede. Quando vimos que um caça do governo passou sobre nós na primeira vez procurei um lugar pra correr e tentar me esconder caso ele nos bombardeasse. E foi assim nas outras vezes que ele passou.

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Tomando chá enquanto um caça do governo passou umas 5 vezes sobre nós, e mais tarde destruiu um hospital e um prédio vizinho com uma bomba.