Síria – impressões. Cotidiano!


Quando pensava na guerra na Síria, e em Aleppo principalmente, que era a cidade para a qual eu planejava ir, eu imaginava a cidade completamente deserta, habitada apenas pelos soldados do regime e pelos soldados do FSA. Não conseguia imaginar pessoas vivendo no meio de uma guerra na qual nenhum dos 2 lados tem escrúpulos em matar a sangue frio. Hoje eu percebo a falta de nexo dessa minha idéia. Aleppo tem 4 milhões de habitantes. Pra onde toda essa gente poderia ter ido? 

Quando comprei a passagem comecei a conversar com fotógrafos que já haviam ido para lá e quando perguntei a respeito da logística, onde eu iria comer, essas coisas, eles me disseram que poderia levar dinheiro pois eu encontraria barracas de rua vendendo “churrasquinho de gato”, kebab, e muitas outras coisas. A princípio fiquei pasmo, e esperei pra ver se era verdade. 

Image

Lixo se acumula por toda a cidade. Em alguns pontos, os montes chegam a quase 4 mts de altura. A solução adotada é queimar parte do lixo, coisa que é feita diariamente pela população

Ao chegar, vi que não apenas era verdade, mas eles estão até confortáveis com a situação, na medida do possível. Nos primeiros dias eu ficava atento sempre que ouvia uma explosão de morteiro, e sempre achava que era muito perto de onde eu estava, mas a partir do segundo, terceiro dias, eu já não dava mais atenção a isso. Não é uma situação confortável, mas eu já entendia se o morteiro tinha caído perto ou longe de mim, e eu conseguia manter a calma, afinal, o som de explosões não parava durante as 24hs do dia. E a partir daí, eu passei a entender como é possível que as pessoas vivam nessa situação a quase 7 meses e sigam tocando as suas vidas. Mesmo com a guerra as pessoas precisam comer, precisam de roupas, as crianças não deixam de ser crianças e continuam brincando nas ruas, e a vida segue, com uma quase normalidade assustadora, pois uma pessoa pode estar indo comprar pão, ser atingida por um morteiro, e pronto. Afinal, assim é a incerteza da guerra. A única coisa certa é que você está aqui nesse momento, e no próximo pode ser que não. 

Image

Pai e suas 3 filhas conversam com soldado FSA na Cidade Velha. A linha de frente nesse bairro fica a apenas 50 mts seguindo por esta mesma rua.

Image

Homem queima o lixo em rua de Aleppo. Essa prática se tornou comum pela maioria das pessoas para que o lixo não se acumule nos bairros de Aleppo dominados pelo FSA.

 

Síria – impressões. A guerra!


Pra começar, gostaria de dizer que esse assunto é muito complexo. Não é fácil dizer “eles estão certos, eles estão errados” e está resolvido. A Síria é uma guerra a parte. Por isso não se pode acreditar em tudo o que vemos na televisão. Estando lá, a realidade é outra!

Independente de opiniões contra ou a favor do regime do Bashar al-Assad, uma coisa é certa: guerras são atrozes, e deveriam ser evitadas ao máximo.

Outra coisa indiscutível é que ditaduras não deveriam mais existir no século 21, mas alguns povos ainda não estão prontos pra serem “livres”. É só ver o que está acontecendo no Egito e na Líbia. Nenhum governo nunca vai ter 100% de aprovação popular, e nos países muçulmanos, onde existe muito extremismo religioso, outros fatores devem ser levados em consideração.

Não sei ao certo o que leva uma pessoa a ir pra guerra voluntariamente (!). Não sei qual foi a minha motivação, mas chegando lá eu vi que numa guerra as maiores vítimas são os civis. Os soldados do exército sírio são obrigados a lutar, os soldados do FSA escolheram lutar e vivem dizendo que querem ir para o paraíso, e no meio disso, quem sofre as consequências é a população, que provavelmente nem quer que a guerra aconteça. Era pra eu ficar uns 11 ou 12 dias na Síria, mas chegando lá, convivendo com os soldados FSA, pagando US$35 por dia pela acomodação, comida e deslocamento, decidi ir embora antes. Eu estava financiando uma guerra que eu não sei se compartilho dos ideais. Dizem ser uma luta por liberdade, mas eu não sei se acredito nisso depois do que presenciei lá. Acho que seja muito mais uma guerra de etnias do que por liberdade propriamente dita.

Image

Pai chora a morte das filhas de 3 e 7 anos, após ataque aéreo do governo.

Um pouco de geografia: a população síria é de 22 milhões de habitantes. 90% muçulmanos, 10% católicos, curdos, judeus, etc. Desses 90% muçulmanos, 90% são sunitas e 10% alauítas, que é a religião do Bashar al-Assad e também da maioria dos cargos de confiança dele, e de muitos dos soldados do exército.

Agora a pergunta: qual vai ser o destino das minorias (cristãos, curdos, alauítas) quando os sunitas (que são o FSA) vencerem a guerra? Ou eles saem do país (o que muitos já estão fazendo) ou vão todos pro paraíso, mesmo que não queiram. E ainda tem o problema do pós-guerra. País quebrado, metade da população morta ou mutilada, infraestrutura acabada, novo presidente, e ainda vai ter que lidar com uma nova guerra, dessa vez étnica.

O governo não ganha a guerra porque não quer. Poderiam bombardear tudo e conquistar o território, mas eles não o fazem. E o FSA, após conviver por 8 dias com eles, não sei como conseguem ganhar território. São muito amadores, e estão muito mal armados, e ainda assim rua a rua, eles ganham terreno e fazem o exército recuar.

Image

Mulher amputada após ataque aéreo do governo.

Aqui ouvimos apenas que o exército sírio comete atrocidades, mas conversando com outros soldados FSA, e vendo o seu modo de ação pude ver que eles também matam civis, torturam soldados capturados, e não demonstram sinais de que vão parar quando acabar a guerra. O FSA é dividido em vários grupos menores, com diferentes líderes, e com diferentes motivações, tendo até um braço da Al-Qaeda chamado Jabhat al Nusra que está na Síria para incitar o extremismo religioso, e quando Bashar al-Assad deixar o poder, todos vão querer uma fatia do bolo, e não vão largar as armas facilmente, o que vai gerar mais brigas, dessa vez entre eles.

É por isso que ainda não tenho, e não sei se um dia vou ter uma opinião formada sobre essa guerra. É certo que quem vai vencer é o FSA, pois eles tem o apoio dos EUA, Qatar, Arábia Saudita, Israel, que os está armando, mas a dúvida é quanto tempo ainda vai durar. Para eles, que são muito divididos, era melhor a ditadura, que regulava o que podia ser feito, visto, dito, mas pelo menos mantinha a ordem no país. Quando a guerra tiver acabado, o FSA vai ter um país em ruínas pra reconstruir, e muito caos para ser resolvido. Aí vamos descobrir se todas essas mortes valeram a pena.

Síria – impressões. Pessoas.


Sempre pensei que em uma guerra, ou em uma situação como a que a Síria se encontra, de caos civil, as pessoas se tornassem egoístas, mas no momento em que entrei na Síria vi que lá as pessoas ainda não estão assim, e durante os 7 dias que fiquei no país pude comprovar isso. Não sei dizer se isso é cultural, se eles já eram assim antes da guerra, ou se eles ficaram assim justamente por causa da guerra,vendo o povo sofrer e sabendo que podem fazer alguma coisa para amenizar o sofrimento dos outros, mas a maioria das pessoas que encontramos sempre se mostrou disposta a ajudar quando precisamos de alguma coisa. Seja pra oferecer cigarro, café ou chá, coisa que eles consomem muito, ou até pra dividir um táxi com outras 5 pessoas que, obviamente, nunca vi e nunca mais verei de novo.

No terceiro dia o carro do grupo FSA (Free Syrian Army) que estávamos estragou, e a partir daí o líder do grupo vivia dizendo “Bukra, inshallah, vou conseguir um carro para vocês”. Essa parte nós sabíamos que era lorota, mas depois disso começamos a andar de táxi, e alguns dias ficamos fora até 21hs, 22hs, e nesse horário não encontrávamos mais táxi para voltar para a mesquita, mas sempre encontrávamos alguém que, na escuridão total, e com risco muito grande de assalto, ainda assim parava para nos dar carona.

Youssef, o “faz-tudo” que contratamos lá, vivia se desculpando por tudo. Quando não tinha luz ele se desculpava, quando não tinha internet, quando não tinha água quente (por essa ele se desculpou todos os dias), quando o carro estragou, e muitas outras vezes. Só faltou se desculpar por estarem em guerra, como se a culpa da infra-estrutura do país estar assim fosse dele.

Mesmo nas vezes que fomos para a linha de frente os soldados FSA insistiam para que tomássemos chá com eles. Ouvíamos os tiros dos atiradores do governo nas paredes ao nosso redor, e nós lá, “tranquilos” tomando chá, como se naquele momento nada pudesse acontecer conosco.

Por via das dúvidas eu tomava o chá rápido e ficava pronto pra sair correndo… Um exemplo é essa foto abaixo. Estávamos em um local aberto, tomando chá encostados em uma parede. Quando vimos que um caça do governo passou sobre nós na primeira vez procurei um lugar pra correr e tentar me esconder caso ele nos bombardeasse. E foi assim nas outras vezes que ele passou.

DSC_6630

Tomando chá enquanto um caça do governo passou umas 5 vezes sobre nós, e mais tarde destruiu um hospital e um prédio vizinho com uma bomba.

Síria – impressões. Trânsito.


À primeira vista, o trânsito na Síria parece louco, desorganizado, sem sentido. Mas depois de 30 minutos andando de carro lá, tu vai ter certeza disso. 

Se tem um carro vindo na tua direção, tu buzina. Se tem um pedestre descendo da calçada, tu buzina. Se o carro na tua frente está devagar, tu buzina. Se o carro na tua frente está rápido, tu buzina. Se o carro na tua frente parou, tu buzina. Se o carro andou, buzina. Se tem alguém de bicicleta, buzina. Até as bicicletas tem buzina! E o próximo passo vai ser distribuir buzina para os pedestres, que na verdade não estão nem aí, porque quando eles querem atravessar eles simplesmente vão andando, nem olham para os lados, e todo mundo fazendo o que? Buzinando, claro! Mesmo quando não vão atravessar eles andam no meio da rua, até que alguém buzine, aí eles vão um pouco para o lado para o carro poder passar.  Enfim, muito simples. E como não tem polícia controlando, fico tudo ainda mais fácil. Não precisa ter carteira de motorista, não tem idade mínima pra começar a dirigir, e na maioria das ruas tu pode passar por onde estiver mais fácil de chegar no teu destino. Se tu tem que virar à esquerda, não precisa ligar pisca-pisca, nem dar preferência. É só ir buzinando, parando, deixa um passar, anda um pouco, e se estiver difícil, tu pode andar pela mão inglesa mesmo, não precisa perder tempo. 

Os carros e motos não precisam ter faróis, basta que andem. E se tu tiver sorte, tu não vai atropelar nenhuma muçulmana durante a noite, andando toda de preto na escuridão total, já que praticamente toda a cidade de Alepo está sem luz. 

Mas tudo tranquilo. Tirando isso, o trânsito é uma maravilha…

Em Kilis.


Bom, cheguei ontem em Kilis, e fiquei no hotel Paris esperando um fotógrafo da Espanha que vai atravessar a fronteira comigo amanhã. Nesse tempo encontrei várias pessoas que estiveram na Síria nos últimos dias, tirei várias dúvidas que eu tinha, e era isso. Agora vou ter que arrumar tudo, porque amanhã de manhã, as 8:30 nós saímos do hotel em direção à fronteira com a Síria, e lá vai ter um “fixer”, que é um “faz-tudo” pra quem entra no país. Ele vai nos levar pra lá e pra cá nesses dias que vamos estar lá, vai conseguir um lugar pra ficarmos.

Enfim, vamos ver no que vai dar. Não sei se vamos conseguir acesso à internet por lá, mas se conseguirmos vou tentar mandar notícias. Se não, dia 27 ou 28 estaremos de volta em Kilis pra tentar visitar o campo de refugiados aqui perto. 

Até a volta. 

PoA-RJ-Paris-Istambul, e daqui a pouco Gaziantep!


Coisa boa chegar num país onde tu não entende o idioma! Não importa o que tu pergunte pra qualquer pessoa, sempre parece que eles estão xingando! Eles fazem uma careta, dão uma reclamada em turco, e depois respondem numa mistura de turco com inglês que, se tu não entender na primeira, vai piorando com o tempo, até tu ter certeza de que eles estão te xingando, aí mesmo que tu não tenha entendido é melhor fingir que sim, sair de fininho, e perguntar pra outra pessoa depois, prestando bastante atenção na primeira resposta! 

Agora eu estou sentado num café, pra poder usar a internet, e há pouco chegou uma senhora e começou a gritar alguma coisa em árabe no meu ouvido! Quase me escondi em baixo da mesa. Ou ela estava achando que eu tenho cara de árabe ou ela estava falando que eu matei alguém! Falei que não entendia, em inglés, e acho que ela também não entendeu o que eu falei, e foi embora do jeito que chegou! 

Vou ficar aqui nesse café de gaiato até os garçons virem me tocar daqui. Presumindo pela cara deles acho que não vai demorar muito, mas vai saber… Às vezes as aparências enganam… Vamos ver quem desiste primeiro… Image